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Chegámos a Miranda do Corvo um pouco depois das 21h30, hora em que o briefing iria começar e mesmo a tempo de levantar os dorsais, preencher o inquérito do Centro de Investigação em Motricidade Humana sobre a motivação dos atletas para a prova e perceber como iria funcionar o estudo que iria acompanhar o nosso comportamento da glicose durante a mesma, estudo interessantíssimo para o qual eu e o Daniel nos tínhamos inscrito. O Daniel é uma amizade recente feita por ocasião desta corrida, que veio do Brasil estudar por uns tempos em Portugal, a quem tivémos o prazer de dar boleia para a prova e quem eu tive o prazer de acompanhar durante parte da mesma. Tem apenas 20 anos, mas promete dar cartas em alguns contextos muito específicos da corrida de longas distâncias... tenho a certeza que mais para a frente ainda vamos ouvir notícias dele, vindas do outro lado do Atlântico.
Feito o briefing, comida uma bela bifana abútrica bem picante e dados uns abraços a pessoas conhecidas e outras acabadas de conhecer (não é este um dos objectivos de participar nestas coisas?), fomos para o pavilhão dos Bombeiros Voluntários, onde dormimos um belo e gelado soninho... gelado aliás foi a palavra de ordem durante a noite e pela manhã. Quando acordei às 5h30 e saí à rua, deparei-me com uma placa de gelo que cobria os carros e tudo à nossa volta... a meteorologia já prometia muito frio para a prova e até já comparávamos o início desta com a de Barcelos, por ocasião do Ultra Trail Amigos da Montanha.
Mas desta vez tivemos uma ajudinha do céu limpo que ajudou o sol a brilhar e a nos aquecer logo após a partida. Claro que os gaiteiros também deram uma ajudinha extra a quem precisava daquele aquecimento especial, principalmente para aliviar o nervosismo e colocar um sorriso na cara de quem, como eu, ia iniciar pela primeira vez uma prova de 45 km, uma Ultra... Mas uma vez dado o sinal de partida, já só se pensa em correr. A prova e a lama... Pode-se dizer que o início da prova foi, mais do que duro, enlameado! Logo desde os quilómetros iniciais que, após saírmos de Miranda do Corvo e passarmos o parque biológico, onde começámos logo a ver as primeiras quedas de alguns atletas (com o frio e o gelo, as passadeiras de madeira transformam-se em autênticos ringues de patinagem), começámos a entrar no meio das árvores e a deparamo-nos com o primeiro obstáculo: a lama. Sem grandes hipóteses de passar alguns atletas mais lentos, a única coisa a fazer era mesmo seguir em frente, pé ante pé, no meio da lama... e se esta era inicialmente incómoda, principalmente porque atrasava o ritmo, mais tarde já só nos preocupávamos em não enterrar os pés mais do que pelos tornozelos, pois correr ainda quase a totalidade da prova com os pés enlameados não era nada desejável. Mas o "pior" ainda estava para vir... ... as subidas e descidas... No decorrer da prova tive oportunidade de escutar muitos comentários sobre a dureza da mesma. Desde comentários que aqui não posso transcrever, a outros comparativos com outras provas conhecidas pela sua dureza, é ponto comum que todas elas passavam a ter com estes Trilhos dos Abutres um desafio mais do que à altura. Após os trilhos de lama, iniciou-se a primeira subida que ainda se poderia dizer que era curta, embora já servisse de anunciação para o que aí viria mais tarde. Nesta altura ainda os ânimos estão exaltados, a companhia era mais do que animada, com a Laurentina a fazer com que déssemos corda aos sapatos nas subidas e o Carlos Sousa a fazer-nos perder o fôlego de tanto rir... isto tudo faz-nos descontrair e, a mim, fez-me perder um pouco a noção de que ainda faltavam muitos quilómetros até ao final da prova. E assim sendo, toca a dar gás! Por volta do km 10 - km 15, o primeiro desafio digno do nome: uma subida longuíssima e muito técnica e, pior, com um grau de elevação que quanto mais olhava, mais dizia que era mentira! Não era. Mas os ânimos ainda estão na mó de cima e com o apoio do resto do pessoal, lá levamos a nossa motivação a trabalhar e as pernas também. Mas custou... e custou mais do que chegar ao topo e recuperar... custou um susto que passo a descrever. ... glicémia a 52?! Muitos foram os artigos que aqui publiquei sobre alimentação durante os treinos, ou alimentação antes, durante e depois da prova. E se muitos são os artigos, mais são as opiniões. Mas só quem passa pelas situações na prática é que sabe o que custa, o que se sente e o que dói no corpo! Cerca de 2 horas antes da prova comi um iogurte magro com flocos de aveia, uma banana, uma sandes de fiambre e, um pouco depois, a bela da proteína. Quando parti estava fresquinho e o controle de glicémia antes da partida mostrou um índice de 84. Passadas as duas primeiras subidas do percurso (e a primeira verdadeiramente difícil), já por volta do km 18, restou-me guardar o que restavam das forças - que já não eram muitas - para conseguir chegar no melhor estado que podia ao posto de abastecimento 2. Até aqui já havia abastecido (pouco) e ingerido uma saqueta de gel e estava a pensar na segunda, mas queria guardá-la para o km 20, pois estava a racionar 1 saqueta por cada 10 km. Foi um erro. Quando na chegada ao posto de abastecimento 2 fui para o controle da glicémia, pedi para ver o meu nível pois sabia que estava baixo: sentia-me ensonado e já a desfalecer e, sem grandes surpresas, verifiquei que estava mesmo baixo. A grande surpresa foi saber que estava a 52!!! Claro que fui comer... aliás, um dos responsáveis pelo teste acompanhou-me mesmo à mesa dos abastecimentos, não me fosse dar um "treco" até lá. E não foi pouco o que comi: uns valentes cubos de marmelada (já que o açúcar é rápido), umas quantas tostas com o bom mel da serra da Lousã, uns 2 ou 3 copos de coca-cola, banana... e a saqueta de gel mesmo antes de arrancar. Claro que, com este repasto, o meu corpo agradeceu, principalmente depois de me ter dado uma valente chicotada por não o ter sabido escutar e respeitar a sua vontade. Lição aprendida e depois de algum tempo no posto, continuei a minha prova, já com a energia em alta!
Mais subidas e descidas Depois deste precalço, posso dizer que não tive mais problemas de energia. Estava agora bem abastecido e pronto para enfrentar a dureza do que ainda estava para vir. E era muita ainda a dureza do que estava para vir. Sem grandes detalhes, posso dizer que até cerca dos 30 km todo o percurso esteve bem recheado de subidas e descidas muito íngremes e técnicas. É de destacar o grande downhill com inclinação a ultrapassar os 30%, que custou talvez mais do que certas subidas, em parte por causa da minha inexperiência neste tipo de técnicas. Já o trilho depois da aldeia de xisto, muito técnico e sempre acompanhado por água, antes do 4ª abastecimento, feito também em boa companhia, fazia mais parte da minha experiência de treinos em Monsanto ou na Serra de Sintra, com muitas pedras, algumas muito escorregadias, troncos de árvores "manhosos", travessias da ribeira pelas pontes de madeira ou em cima de troncos caídos, mas sempre num ritmo muito interessante e, não fossem as forças gastas ao início, de certeza feito de forma um pouco mais intensa. O final, ainda com forças Depois do 4º posto de abastecimento e feito novo controlo de glicémia (ainda num estado muito normal), os últimos 6 km foram feitos sempre a correr num ritmo muito bom e tão forte quanto as forças ainda me permitiam. Creio que ainda cheguei aos 4 min/km, não sei bem se nos estradões de terra, onde me pude cruzar com os participantes bem animados da caminhada (obrigado pelo grande apoio que prestaram aos atletas), ou já no asfalto da entrada da cidade, se bem que parte desta força estava no cheiro que já sentia da meta. Ora estes Abutres foram, mais do que eficientes e muito bem organizados, muito brincalhões. E percebe-se (com um inevitável sorriso na cara) ao longo do percurso, em vários pormenores que deixo a cada um dos que participou relembrar, bem como quando mesmo antes de chegar à meta que estava montada no pavilhão desportivo, não percebemos bem por onde é o caminho, até aqui muito bem assinalado pelas sempre presentes fitas amarelas. Quero dizer, não percebemos porque não queremos perceber, pois este final do percurso continua muito bem assinalado, mas segue por um autêntico muro íngreme de terra que sobe até aos últimos apoiantes que, lá de cima, gritam e puxam pelas últimas forças dos atletas... que cá de baixo mais não têm a fazer que deixar as últimas "perninhas" que ainda sobram e conquistar a última subida... mas sempre com um sorriso na cara...
Em jeitos de conclusão Creio que não preciso de me alongar muito mais para quem ler isto perceber que foi uma prova sofrida, mas conquistada! Não preciso de me alongar muito mais para dar a entender que os Abutres estão de parabéns pela organização, pela trabalheira que devem ter tido a montar o percurso, a marcá-lo e a torná-lo o mais seguro possível para os participantes. Também não me vou alongar muito mais nesta descrição, mas quero terminar com uma frase que está presente no site dos Trilhos dos Abutres e que, de uma forma geral, transmite a minha sensação final depois da prova: "Não me admiro se qualquer dia ouvir: esta prova era boa, mas não se compara aos Abutres..." Nota positiva portanto para a organização, bombeiros, voluntários e apoiantes em geral, bem como para todos os atletas, em particular para a Marta e a Inês, também De Sedentárias a Maratonistas, que terminaram os Trilhos no 11º e 12º lugares do escalão.
Nota negativa para o que aconteceu ao meu troféu, que sofreu um acidente no carro e partiu-se ao cair ao chão. Já o colei, mas mesmo assim ficou com uma marca valente bem visível na parte da frente... talvez para me relembrar o que custou e tudo o que aprendi ao fazer o meu primeiro Ultra Trail que, sem dúvida, irá ficar para sempre.
Já por diversas vezes me deparei com esta questão, mas nunca exerci o direito de livre expressão... no entanto vai ser hoje mesmo! E que me desculpem os mais sensíveis pela linguagem nalgumas passagens...
Motoqueiros e motards
Há alguns anos atrás (e durante largos anos até) tive uma moto. Uma não! Que me lembre tive uma data delas, desde a Vespa à Honda CBR 1100XX, posso dizer que experimentei de tudo. Ainda hoje tenho uma Africa Twin na oficina, desmontada, à espera que a "troika" se vá embora, para poder lá ir buscá-la e pagar ao mecânico... mas adiante! Foram muitos anos a andar de moto e deu para ver de tudo, os que respeitam e os que se estão (desculpem o calão) a cagar!!! E por causa dos últimos quem é que depois pagava as favas? O justo pelo pecador, como sempre. Tínhamos que fazer pré-pagamento nas bombas de gasolina, só porque íamos de moto, porque normalmente a malta de moto foge sempre sem pagar. E tínhamos que ouvir alguém a chamar-nos de motoqueiros, porque só sabem é acelerar a fundo, fazer barulho e dar "rateres", quando o que sentíamos na alma é que, na realidade, éramos motards. Ainda me lembro deste ou daquele amigo que perderam a vida num rail não protegido, numa estrada qualquer, que afinal estavam lá para os proteger... E ainda me lembro da altura em que, ao cruzar-me na estrada com outro motard, fazer o cumprimento com os dedos em "V" era um sinal de reconhecimento, respeito, civismo, cumplicidade e sei lá mais o quê. E ainda me lembro quando isso começou a deixar de se ver.
O treino de hoje
Hoje eram 7h00 da manhã quando estava a correr por uma das encostas da Serra de Sintra. Objectivo: ver o sol nascer lá de cima, no marco geodésico da Pedra Amarela e depois meter uns kms fora de estrada, como treino para o Trilho dos Abutres, no próximo dia 28 Janeiro. Já perto da Peninha, ao lado da placa de madeira que indica 2,9km até à Pedra Amarela, encontrei lixo no chão. Podiam ser uns lenços ou uns preservativos usados (que se encontram aos montes em Monsanto), deixados por alguém que não tem nada a ver com a floresta, mas infelizmente não. Eram mesmo umas saquetas de gel energético já vazias, deixadas por algum "atleta" que por ali passou, fosse a pé ou de bicicleta. E não foi só aqui... dei com, pelo menos, mais 3 locais sujos, inclusive com copos de papel com marca de bebida energética (?!!!).
A minha observação é: se opto por fazer trail (ou trail running) é porque gosto! Claro que gosto de correr noutros locais, mas gosto mais de correr no meio da natureza do que no asfalto. Gosto da simbiose, de respirar ar puro, da dificuldade das subidas e da pica que me dão as descidas. De gerir os kms! Ou de escalar uma rocha até um precipício, ou por vezes não saber bem onde estou e ter de encontrar o caminho de regresso (obrigado Inês pela prenda de Natal). O ponto principal é que gosto e, se gosto, não estrago! Também eu uso saquetas de gel e até as tenho presas de forma algo arcaica ao meu camel bak, mas nem por isso elas caem ao chão. E nem quando as uso deito para o meio do mato a saqueta vazia. Porquê? Porque tal como respeito o motard que passa por mim na estrada, também respeito o outro atleta que, como eu, também se identifica com o estar ali... e também respeito o meio ambiente que me rodeia, como Ser vivo que é! Portanto, não consigo simplesmente conceber como é que há quem se vá encher de saúde num local mágico como a Serra de Sintra e simplesmente não guarde o seu lixo até chegar a um contentor, onde o possa despejar sem qualquer dificuldade acrescida. Hmmm, porque depois fica com a mochila ou os bolsos besuntados de gel? Pois claro! Mas não deve ser pior do que esse cheirinho a suor acrescido de lama, que quando chega a casa tem que lavar imediatamente, ou a mulher e os filhos não o deixam entrar! E como agem estas "criaturas" numa prova como um GTSA - Grande Trail Serra D'Arga, um UTAM - Ultra Trail Amigos da Montanha (falo dos que conheço, mas calculo que seja apanágio deles todos), ou ainda o próximo Trilho dos Abutres, onde há indicações claras no regulamento que quem for apanhado a deitar lixo pode mesmo vir a ser desclassificado? E será que pensam que as saquetas pura e simplesmente se desintegram? Sim, decompõem-se... ao fim de uns 400 anos!
Atleta ou "alguém que corre"?
Não agora, mas mais tarde, depois de uns anos valentes de trail running, não tardaremos muito em ouvir alguém falar daqueles "malucos das corridas que vão para aí sujar a floresta"... e então, tal como os motards um dia passaram a ser motoqueiros, também os atletas vão passar a ser somente alguém que corre. Pensem um pouco por favor, não custa assim tanto.