25.05.15
As estrelas da Estrela
José Guimarães
Primeira etapa: quando tudo está bem
Não, o Estrela Grande Trail não teve só 3 etapas. Teve mais do que isso. Mas para mim teve 3 momentos distintos. Diz o ditado que "tudo está bem quando acaba bem... e se não está bem é porque ainda não acabou." Digamos que eu já sabia o que me esperava nesta corrida. Há algum tempo que não fazia uma prova assim tão longa e há praticamente 1 ano que não corria na Serra da Estrela. Já sabia que o desnível que a organização tinha "inventado" era mais do que muito (11.000m de subidas e descidas) e que o terreno seria difícil de aturar durante muitas horas. Seria portanto um excelente treino para o tal objetivo de Agosto: o Ultra Trail du Mont Blanc. A Serra da Estrela é muito dura para correr. Tem poucas zonas com sombra, vegetação muito rasteira, subidas e descidas intermináveis e pedra... muita pedra! Mas de manhã cedo ainda não se pensa em nada disso. Anseia-se... teme-se até, mas tenta-se desviar a atenção do pensamento das dificuldades. Já referi vezes sem conta que a organização tomou, sempre que possível, as melhores e mais acertadas decisões. Até algumas mais polémicas. E uma das melhores decisões que podiam ter tomado foi dar o tiro de partida às 6 da manhã. A Serra da Estrela é, por si só, um cenário deslumbrante. E nem mesmo as passadas ofegantes dos primeiros 10 km sempre a subir foram capazes de desviar a nossa ocasional atenção para o cenário que nos rodeava, já por cima de Manteigas, a caminho do Vale do Rossim. E se este último é bonito, o que dizer dos locais emblemáticos como a "fenda", a "nave" e todo o Vale do Loriga? Tive pena de não ter muitas vezes à mão uma máquina para registar as paisagens incríveis que se desdobravam à minha volta, mas não se diz - afinal - que os melhores momentos são aqueles que levamos na memória e no coração? Pois então... Até ao posto de controlo no Alvoco, pouco mais há, de facto, a registar. A corrida fazia-se ao passo que os trilhos me permitiam, tentando em plano e nas descidas compensar o que em subida era impossível fazer - correr - não me esquecendo de comer e beber (água e isotónico) em intervalos de tempo tão coerentes quanto possível.Segunda etapa: quando nem tudo está bem
Nem mesmo a tão temida subida do Alvoco para a Torre (dos cerca de 750m de altitude até aos 2.000m de altitude) foram a pior experiência da prova, como eu esperava que fosse. Como se pode amaldiçoar afinal o privilégio que é subir um trilho único assim? Como se pode não gostar de, na chegada ao topo, ao fim de 2:30 horas e de apenas 7,5km decorridos, após trepar pedra após pedra e contar todos os metros conquistados, contemplar a beleza que nos rodeia, a começar pela vista e a acabar no silêncio, que só era interrompido pelo bater do coração, que quase me saltava pela boca?
Tinha chegado ao topo cansado, muito cansado. Mas o vislumbre do edifício da Torre lá me fazia ir buscar forças não sei onde, para ser capaz de correr mais aquele bocadinho, até ao 5º abastecimento da prova. E ver o Catarino a aplaudir a malta que chegava ao posto de controle e a gritar por este aqui que se arrastava foi muito retemperador. Foi o suficiente para ainda ter um sorriso para registar na fotografia. Obrigado amigo! Estavam feitos 40kms, quase metade da prova. A partir da subida à Torre, a principal dificuldade estaria ultrapassada. Ou assim pensava eu. Bem nos tinha avisado o Armando que o vento fresco a soprar por cima do calor nos iria dar uma falsa sensação de frescura. Acontece que 2:30 horas a subir debaixo de sol desidrata qualquer um. E por muito que se beba, o corpo chega a uma altura que se parece com um poço sem fundo. Quando temos reservas de água racionadas, que remédio temos nós senão saber geri-las até podermos voltar a encher o depósito novamente. Nova descida (longa) e subida até Poios Brancos, onde depois de abastecer com mais líquidos, percebi que o corpo começava a rejeitar aquilo que eu tentava dar-lhe de alimento. Já não suportava as barras energéticas, os frutos secos só de empurrão e o isotónico então, nem cheirá-lo. Onde é que eu já tinha visto este filme antes? Não teria eu aprendido nada no Piódão? Em provas longas como esta (ou digamos, provas com mais de 5 horas de duração), o corpo precisa de alimentos ditos normais, pois começa a rejeitar os alimentos doces e a pedir uma base salgada, tal é o sódio e sais minerais que já perdeu com tanto esforço e transpiração. Mas se os géis energéticos e algumas barras ainda são toleráveis, já percebi que, por exemplo, isotónico em demasia acaba por enjoar, provocando o tal efeito de "fechado para obras". Assim, aproveitando este posto de líquidos e tendo em conta que daqui até ao próximo abastecimento seriam uns longos 15 kms, despejei o resto de isotónico e fiz-me valer das pastilhas de sal e de umas saquetas de bicarbonato, que sabem mal como tudo, mas que fazem milagres em casos de desidratação. Com esta ajuda e continuando a forçar a ingestão de frutos secos e uma barra comida aos bocadinhos, cheguei como podia ao Vale da Amoreira, onde passei então à terceira etapa da prova.